Trade Marketing e Retail Media: o novo pacto de poder no varejo omnichannel

Quando o Trade e o Retail Media se Olham no Espelho

O embate entre Trade Marketing e Retail Media não é apenas sobre orçamentos; é sobre poder e propósito. O Trade sempre foi o motor silencioso da execução no ponto de venda, o guardião da visibilidade, do planograma e do incentivo. Já o Retail Media nasceu digital, orientado a dados, à performance e à monetização. Mas à medida que o varejo se torna phygital, os limites se dissolvem. O que antes era o “trade shelf” agora é também um “retail media placement”. O ponto de decisão não é mais apenas físico ou digital: é híbrido, contextual e mensurável em tempo real.

O Conflito Invisível: Orçamento, Dados e Controle

As tensões não são teóricas. Elas acontecem nas planilhas e nos dashboards.Enquanto o Trade Marketing busca proteger seu budget de exposição e incentivos, o Retail Media aparece com promessas de atribuição e retorno de investimento direto.Mas na prática, os dois estão investindo em awareness, conversão e sell-out — apenas com métricas diferentes.

A verdadeira disputa não é por território, mas por governança:

  • Quem define o mix entre investimento institucional (marca) e promocional (sell-out)?
  • Quem tem acesso aos dados do shopper e do ponto de venda?
  • Quem mede o resultado e dita a narrativa de performance?

O duelo que virou sinergia

Durante décadas, o Trade Marketing reinou soberano na conexão entre marcas e lojas. Era o elo que traduzia estratégia em execução — displays, ações no PDV, bonificações e estímulos de sell-out. Mas o avanço dos ecossistemas de Retail Media mudou a dinâmica. Hoje, o poder de influência sobre o shopper não está apenas nas gôndolas, mas também nos dados de navegação, nas audiências digitais e nos anúncios que aparecem na jornada de compra — seja na prateleira física ou na vitrine online. Podemos sintetizar a inquietação de toda uma indústria: quem está devorando o espaço de quem? Mas talvez a pergunta mais importante não seja quem vence, e sim como os dois podem crescer juntos.

Do orçamento ao algoritmo: o novo campo de disputa

Nos bastidores do varejo, o conflito é silencioso, mas real. Enquanto o Trade Marketing opera com verbas destinadas à exposição e incentivo de compra, a Retail Media surge como um centro de receita, capturando orçamentos de marketing de marca e performance. Ambos, porém, perseguem o mesmo objetivo: gerar sell-out e valor incremental para o varejista e o fabricante.

O dilema nasce quando cada área tenta mensurar o impacto por métricas diferentes: o Trade fala em share of shelf e volume incremental; o Retail Media fala em impressions, ROAS e conversion lift. No fundo, medem o mesmo fenômeno: a influência sobre a decisão de compra do shopper.

As pioneiras que estão quebrando o muro

Nos Estados Unidos e na Europa, redes como Kroger, Tesco e Walmart começaram a redesenhar seus times internos para eliminar essa fricção. O modelo emergente é o da governança híbrida, onde Trade, Marketing e Retail Media atuam como uma célula única de shopper influence, com objetivos comuns de crescimento e rentabilidade.

A Kroger Precision Marketing (KPM), por exemplo, unificou times de dados e operações de loja para mensurar o impacto de campanhas digitais diretamente no sell-out físico. Já a Tesco Media & Insight Platform posicionou o Retail Media como “o novo trade”, criando modelos de patrocínio que vinculam mídia digital e execução em loja sob o mesmo dashboard de performance.

A convergência operacional: três movimentos que definem o futuro

A integração entre Trade e Retail Media não acontecerá por decreto — ela precisa ser operacionalizada. As empresas mais maduras estão adotando três movimentos fundamentais:

Integração de dados e fluxos de decisão
Conectar dados de sell-out, exposição e comportamento omnichannel para gerar uma única visão do shopper. Plataformas de clean room e CDPs estão se tornando o elo técnico dessa união.

Mensuração unificada
Substituir indicadores isolados por métricas híbridas de impacto, como uplift total e incremental sales attribution. Isso permite comparar, na mesma base, uma campanha de display no PDV e uma mídia patrocinada no app.

Governança conjunta
Criar comitês mistos de Trade, Retail Media e Marketing para decidir onde investir, como medir e quem lidera a execução. A lógica deixa de ser “quem tem o budget”, e passa a ser “quem gera o crescimento mais sustentável”.

    O nascimento do “Full Funnel de Loja”

    A integração das duas frentes dá origem a uma nova disciplina: o Full Funnel de Loja.
    Nela, o investimento não é visto por canal, mas pelo impacto integrado na jornada de compra — do awareness à conversão no carrinho. Imagine um shopper impactado por um banner de mídia dentro do app do varejista, que depois encontra o mesmo produto com destaque físico e ativa um cupom via CRM. Essa jornada unificada é a tradução prática da convergência entre Trade e Retail Media — e está redefinindo como fabricantes planejam suas verbas.

    O Brasil na encruzilhada

    No varejo brasileiro, essa integração ainda engatinha. As áreas de Trade permanecem muito ligadas às negociações comerciais, enquanto as frentes de Retail Media operam sob estruturas de inovação ou marketing digital, sem interlocução direta. Mas à medida que as redes — como Carrefour, GPA, RaiaDrogasil e Magalu — expandem seus ecossistemas de mídia e dados, a necessidade de unificação se torna inevitável. A disputa por quem “controla o shopper” precisa ceder espaço a um modelo mais maduro de co-governança, com indicadores compartilhados e metas de crescimento conjunto.

    Colaboração é o novo ROI

    No fim, o maior indicador de sucesso não será o share de orçamento, mas o nível de colaboração entre Trade e Retail Media. As marcas que entenderem isso primeiro terão vantagem competitiva decisiva, porque conseguirão planejar, executar e mensurar em um mesmo ciclo. Enquanto alguns ainda discutem quem come quem, os líderes já aprenderam a cozinhar juntos, e estão servindo o prato principal do novo varejo: crescimento colaborativo, medido com precisão e entregue com propósito.

    As RMNs com integração entre Trade Marketing e Retail Media são as que mais crescem — superando 40% de aumento em receita anual. A integração operacional e de dados não é apenas estratégica, é a força motriz do crescimento do ecossistema de mídia de varejo.

    O mercado norte-americano e europeu, com referências como Kroger Precision Marketing, Tesco Media & Insight Platform e Walmart Connect. Esses players apresentaram crescimento médio superior a 30% ao ano em receitas de Retail Media entre 2023 e 2024, conforme estudos da Insider Intelligence e GroupM. O destaque de ≥40% representa as RMNs que já adotaram integração com Trade Marketing, atribuição full-funnel e comercialização de inventário omnichannel — o caso Kroger é exemplar aqui.

    Ricardo Vieira
    Ricardo Vieirahttp://www.digitalstoremedia.com.br
    Ricardo Vieira atua em diferentes canais e segmentos há 30 anos no varejo brasileiro, é fundador da ABRAMEDIA e da DIGITAL STORE MEDIA, criado para fomentar todo ecossistema de Retail Media no mercado brasileiro, também dirige o Clube do Varejo, criado em 2019 para desenvolver pequenos varejistas. Ele também fundou e preside o Instituto Nacional do Varejo (INV), promovendo a indústria varejista desde 2017 com soluções inovadoras. Desde 2006, é sócio-diretor da TRADIUM, focada em soluções tecnológicas! Criou o Retail Media Academy, Retail Media News e Retail Media Show para fomentar a excelência em mídia e varejo. Com expertise em inteligência de vendas, trade marketing, CRM e fidelidade, Ricardo lidera projetos de inteligência para indústria e varejo. Sua trajetória inclui papéis significativos como VP de Sustentabilidade na ABRALOG e Coordenador Regional de Projetos na Ambev.

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