In-Store Media sob pressão: estamos medindo demais ou medindo errado?

O avanço acelerado do In-Store Media como um dos principais vetores de crescimento do Retail Media global começa a enfrentar um novo tipo de questionamento: estamos medindo demais e, talvez, medindo errado? A provocação aqui expõe uma tensão crescente no setor. Após anos de investimento intenso em tecnologias de captura e análise de dados dentro da loja física, cresce a percepção de que a sofisticação da mensuração nem sempre se traduz em clareza sobre resultados reais de negócio.

A ascensão do In-Store Media como um dos pilares mais promissores do ecossistema de Retail Media trouxe consigo uma obsessão crescente por mensuração. Sensores, câmeras, dados de fluxo, dwell time, heatmaps e modelos de atribuição sofisticados passaram a dominar o discurso técnico.

A promessa da mensuração total e suas limitações

Nos últimos anos, o In-Store Media buscou replicar, e até superar, a lógica de mensuração do digital. A ideia era clara: transformar o ambiente físico em um espaço tão mensurável quanto o e-commerce. Essa ambição impulsionou investimentos em visão computacional para tracking de fluxo, sensores para medir atenção e permanência, integração com dados transacionais (sell-out), modelos de atribuição multitoque dentro da loja. O problema? Nem tudo que pode ser medido gera valor real para decisão.

A crítica central não é contra a mensuração em si, mas contra a complexidade excessiva desconectada de outcomes de negócio. Métricas como “tempo de exposição à tela” ou “número de olhares detectados” podem impressionar tecnicamente, mas ainda enfrentam dificuldade em responder à pergunta que realmente importa: Isso gerou incremento real de vendas, margem ou LTV?

Nos últimos ciclos de inovação, o varejo físico passou por uma transformação silenciosa, porém profunda. A loja deixou de ser apenas um ponto de venda para se tornar um ambiente altamente instrumentado, capaz, ao menos em teoria, de capturar múltiplas camadas da jornada do shopper.

Soluções baseadas em visão computacional, sensores de fluxo, análise de permanência e integração com dados transacionais passaram a compor o novo stack de Retail Media in-store. A ambição era clara: replicar, no mundo físico, o nível de rastreabilidade e precisão do ambiente digital. No entanto, essa evolução trouxe consigo um efeito colateral relevante. A abundância de dados passou a competir com a capacidade de gerar interpretação acionável.

Quando medir muito não significa medir melhor

A discussão atual não questiona a importância da mensuração, mas sim a sua utilidade prática. Métricas como tempo de exposição a telas, volume de impressões estimadas ou até mesmo identificação de atenção do shopper, embora tecnicamente avançadas, ainda enfrentam limitações quando colocadas sob a ótica de impacto real.

O ponto central é direto: essas métricas explicam, de forma consistente, o que acontece no caixa? A dificuldade em estabelecer essa conexão evidencia um desalinhamento entre indicadores operacionais e resultados de negócio. O risco é claro: a construção de um ecossistema orientado por métricas que impressionam, mas não necessariamente convencem.

O paralelo com o digital é inevitável. Durante anos, o mercado se apoiou em métricas como impressões e cliques antes de evoluir para modelos mais sofisticados de atribuição e incrementalidade. No In-Store Media, estamos vendo uma repetição desse ciclo, porém com maior complexidade operacional.

A evolução natural aponta para três camadas críticas:

1. Métricas de exposição (input)
Fluxo, impressões estimadas, tempo de permanência, importantes, mas insuficientes.

2. Métricas de comportamento (intermediárias)
Interação com gôndola, deslocamento na loja, engajamento contextual.

3. Métricas de resultado (output)
Incremental de vendas, uplift por categoria, ROI, impacto em margem.

O desafio atual está na transição entre essas camadas, especialmente na capacidade de conectar exposição física a conversão real.

A evolução natural: da exposição ao impacto incremental

A trajetória do In-Store Media começa a refletir padrões já observados no digital. Após um período inicial focado em métricas de volume e visibilidade, o mercado passa a demandar modelos mais robustos, capazes de demonstrar causalidade e não apenas correlação.

Essa evolução pode ser organizada em três níveis:

  • Exposição: fluxo de pessoas, impressões, tempo de permanência
  • Comportamento: interação com categorias, navegação na loja, engajamento
  • Resultado: incremento de vendas, uplift por categoria, retorno sobre investimento

O desafio crítico está justamente na transição entre esses níveis. Conectar exposição física a conversão real permanece como um dos maiores obstáculos técnicos e metodológicos do setor.

O dilema da atribuição dentro da loja

Diferentemente do ambiente digital, onde a jornada pode ser rastreada com maior precisão, a loja física impõe limites claros à atribuição direta. Algumas perguntas continuam abertas:

  • Como atribuir uma compra a uma tela digital específica?
  • Qual o peso da mídia versus preço, sortimento e promoção?
  • Como isolar variáveis em um ambiente altamente dinâmico?

Modelos determinísticos são raros. Por isso, o mercado tem avançado em abordagens probabilísticas e testes controlados (A/B em lojas, geo-experimentos). Mas isso exige maturidade analítica, algo que ainda não é uniforme entre os varejistas.

A decisão de compra no ponto de venda é influenciada por múltiplas variáveis simultâneas: preço, promoção, sortimento, exposição, contexto e até fatores comportamentais imprevisíveis. Nesse cenário, perguntas fundamentais ainda não possuem respostas definitivas:

  • Qual o peso real da mídia em relação às demais variáveis?
  • Como atribuir uma venda a um ponto de contato específico?
  • Como isolar o efeito incremental de uma campanha in-store?

Como resposta, o mercado começa a migrar para abordagens probabilísticas, testes controlados e experimentação em escala, como A/B testing entre lojas e geo-experimentos. Ainda assim, a maturidade analítica necessária para sustentar esses modelos está longe de ser homogênea.

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O risco da “tecnologia pela tecnologia”

Outro ponto crítico levantado no debate é o risco de transformar o In-Store Media em um showcase tecnológico: caro, complexo, pouco eficiente ee difícil de escalar. Quando a mensuração vira protagonista, há três riscos claros:

  • Overengineering: soluções sofisticadas demais para problemas simples
  • Custo elevado: CAPEX e OPEX que corroem margens
  • Desalinhamento com o shopper: experiências invasivas ou irrelevantes

A consequência? Um ecossistema difícil de escalar e ainda mais difícil de justificar para as marcas. A busca por mensuração total pode levar a um fenômeno de overengineering no qual soluções tecnológicas sofisticadas são implementadas sem uma relação clara com retorno financeiro.

Esse movimento traz implicações diretas: elevação de custos operacionais e de implementação, pressão sobre margens do próprio Retail Media e potencial desconexão com a experiência do shopper. Além disso, cresce o debate sobre privacidade, aceitação do consumidor e limites éticos na coleta de dados dentro da loja física.

A virada de chave: mensuração orientada a decisão

Diante desse cenário, o setor começa a consolidar uma mudança de abordagem. A prioridade deixa de ser medir tudo e passa a ser medir aquilo que efetivamente orienta decisões estratégicas. A próxima fase do In-Store Media não será definida por quem mede mais — mas por quem mede melhor.

Isso implica uma mudança de paradigma:

  • De métricas isoladas → para indicadores conectados ao negócio
  • De volume de dados → para qualidade analítica
  • De tracking absoluto → para inferência confiável

Essa virada se apoia em alguns pilares que já começam a priorizar:

  • Estruturação de testes de incrementalidade
  • Modelos de mix de marketing adaptados ao ambiente físico
  • Integração entre dados de loja, CRM e dados de fidelidade, e-commerce
  • Consolidação de métricas omnichannel
  • Mensuração omnichannel (loja + digital)

Mais do que volume de dados, o foco passa a ser consistência, comparabilidade e aplicabilidade.

O novo papel do In-Store Media no ecossistema de varejo

A discussão sobre mensuração revela uma transformação mais ampla. O In-Store Media deixa de ser apenas um canal de mídia e assume um papel estratégico dentro do varejo.

Ele passa a operar simultaneamente como plataforma de monetização, instrumento de influência na decisão de compra e fonte de dados proprietários sobre comportamento. Para sustentar esse posicionamento, no entanto, será necessário avançar na construção de modelos de mensuração que sejam, ao mesmo tempo, robustos e compreensíveis para o mercado anunciante.

Entre a sofisticação e a simplicidade: o equilíbrio necessário

A provocação aqui não representa um recuo na evolução do In-Store Media, mas sim um ajuste de rota. O setor entra agora em uma fase de maturidade, na qual a eficiência analítica tende a se sobrepor à complexidade tecnológica.

No fim, a métrica que realmente sustenta o crescimento do In-Store Media continua sendo a mais simples e a mais desafiadora de provar: o impacto direto no resultado do negócio. E é nessa capacidade de demonstrar valor concreto que o futuro do Retail Media dentro da loja será definitivamente decidido.

O In-Store Media não precisa medir tudo, precisa medir o que realmente importa. Porque, no fim, a métrica que define o sucesso não está na tela, no sensor ou no dashboard. Está no caixa. E, cada vez mais, na capacidade de provar com rigor que a mídia dentro da loja não apenas influencia, mas move o negócio.

Ricardo Vieira
Ricardo Vieirahttp://www.digitalstoremedia.com.br
Ricardo Vieira atua em diferentes canais e segmentos há 30 anos no varejo brasileiro, é fundador da ABRAMEDIA e da DIGITAL STORE MEDIA, criado para fomentar todo ecossistema de Retail Media no mercado brasileiro, também dirige o Clube do Varejo, criado em 2019 para desenvolver pequenos varejistas. Ele também fundou e preside o Instituto Nacional do Varejo (INV), promovendo a indústria varejista desde 2017 com soluções inovadoras. Desde 2006, é sócio-diretor da TRADIUM, focada em soluções tecnológicas! Criou o Retail Media Academy, Retail Media News e Retail Media Show para fomentar a excelência em mídia e varejo. Com expertise em inteligência de vendas, trade marketing, CRM e fidelidade, Ricardo lidera projetos de inteligência para indústria e varejo. Sua trajetória inclui papéis significativos como VP de Sustentabilidade na ABRALOG e Coordenador Regional de Projetos na Ambev.

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