IA conversacional redefine a jornada de compra e inaugura uma nova disputa por visibilidade entre marcas e varejistas

Com um quarto dos consumidores dos EUA usando IA para compras até 2026, a batalha migra do clique para a recomendação e inaugura o “share of answer” como novo território estratégico.

A jornada de compra já começou a mudar de forma estrutural e não apenas no ponto de conversão. O movimento mais relevante agora acontece antes do clique, antes da busca tradicional e, em muitos casos, antes mesmo de o shopper entrar no app do varejista. Segundo a EMARKETER, um quarto dos usuários de internet nos Estados Unidos usará IA generativa para tarefas relacionadas a compras em 2026. Em paralelo, estudo global da IBM com a NRF mostra que 45% dos consumidores já recorrem à IA durante sua jornada: 41% para pesquisar produtos, 33% para interpretar reviews e 31% para buscar ofertas.

A IA deixou de ser uma camada de eficiência operacional e passou a atuar como interface de descoberta, filtragem, comparação e recomendação. Esse é o ponto de inflexão que interessa diretamente ao ecossistema de Retail Media.

Do “share of shelf” ao “share of answer”: a nova lógica da influência

Durante anos, as marcas disputaram share of shelf, share of search e share of voice. Agora, a nova batalha é por share of answer.

Quando o consumidor pergunta a uma IA “qual o melhor hidratante?”, “qual notebook vale mais a pena?” ou “o que comprar para um jantar?”, a resposta não nasce de um ranking neutro. Ela é construída a partir de sinais de autoridade, dados estruturados, reputação distribuída, consistência de catálogo, avaliações, contexto conversacional e capacidade da marca de ser compreendida por motores generativos.

A IA, portanto, deixa de ser apenas um canal de atendimento e passa a ser uma nova camada de mediação da demanda.

O AI Visibility Index: mensurando quem aparece e quem desaparece

A leitura da EMARKETER sobre o tema desloca a análise de performance do clique para a aparição dentro da resposta.

Seu AI Visibility Index mede a taxa de menção de marcas em respostas do ChatGPT a partir de prompts padronizados que simulam perguntas reais de compra, variando produto, atributos, necessidades, público e preço.

Na prática, é uma nova métrica de mercado: não apenas quem recebe tráfego, mas quem é citado, recomendado e legitimado pela IA no momento de consideração.

Os primeiros achados já são estratégicos. No recorte de personal care & beauty do primeiro trimestre de 2026, há uma queda nas taxas de menção entre categorias, indicando que o ChatGPT está distribuindo recomendações entre um conjunto mais amplo de marcas.

Em body care, CeraVe manteve a liderança, enquanto Vanicream saltou da sexta para a terceira posição. O recado é claro: a visibilidade algorítmica está mais fragmentada, mais disputada e menos concentrada. A IA pode reduzir a vantagem histórica de grandes marcas e ampliar o campo competitivo.

Fonte: Emarketer

Retail Media entra na era da intenção conversacional

Para Retail Media, essa mudança é estrutural. Até aqui, o foco esteve em inventários onsite, offsite e in-store, com base em audiência e intenção capturada via navegação. Com a IA conversacional, surge um novo território de influência no topo e meio do funil: o momento em que a intenção é formulada em linguagem natural e a recomendação já chega pré-curada.

A pergunta deixa de ser “como comprar mídia no varejo?” e passa a ser: como garantir que a marca seja selecionada quando a IA transforma intenção em shortlist?

A nova fronteira de Retail Media não é apenas a mídia que aparece na jornada, mas a inteligência que define o que entra nela.

Os movimentos dos gigantes: IA como interface de compra

Grandes varejistas já entenderam essa mudança e aceleram investimentos em IA conversacional.

O Walmart lançou o Sparky, assistente generativo que ajuda shoppers a pesquisar, comparar, sintetizar reviews e comprar com mais confiança. Mais do que um chatbot, o Sparky é um “companheiro de varejo”, com ambição de evoluir para reordenação, serviços e experiências multimodais. Ao mesmo tempo, o Walmart Connect já testa formatos de Retail Media integrados ao assistente.

A Amazon seguiu com o Rufus, treinado sobre catálogo, reviews e dados da web. O objetivo é reduzir fricção de descoberta e decisão dentro do ecossistema Amazon e, com iniciativas como o “Buy for Me”, expandir seu papel para agente de compra, inclusive fora do marketplace.

Na Europa, o Carrefour integrou IA generativa à experiência de compra e passou a permitir compras via ChatGPT na França. O Tesco, por sua vez, testa assistentes focados em planejamento de refeições e personalização baseada no Clubcard, conectando CRM, ecommerce e Retail Media.

Marcas avançam para capturar a consideração antes da plataforma

No lado das marcas, o movimento é igualmente estratégico. A L’Oréal lançou o Beauty Genius, assistente pessoal de beleza com diagnóstico por IA, recomendações personalizadas, base de produtos integrada e conexão com varejistas. A solução já ultrapassou 400 mil conversas nos EUA e avança para integração com WhatsApp.

Outros exemplos reforçam o impacto: Macy’s, com o “Ask Macy’s”, reporta shoppers gastando até 4,75x mais durante testes; e Frasers, com o “Ask Frasers”, registra aumento de até 25% na conversão. A IA conversacional não apenas reduz fricção, ela aumenta profundidade de navegação e qualidade da decisão.

O novo funil: da busca linear à orquestração por IA

Do ponto de vista técnico, a IA redesenha o funil de compra.

No topo, captura intenção difusa via linguagem natural.
No meio, resume reviews, compara atributos e reduz fadiga decisória.
No fundo, monta cestas, sugere substituições e aproxima a transação da conversa.

O funil deixa de ser linear e passa a ser orquestrado por uma interface que interpreta contexto, memória e preferências.

GEO: a nova disciplina entre SEO, conteúdo e Retail Media

Surge então uma nova frente estratégica: Generative Engine Optimization (GEO). Em interseção com SEO, AEO e conteúdo estruturado, o GEO exige que marcas:

  • Auditem sua visibilidade em motores como ChatGPT e Gemini
  • Monitorem menções, não apenas cliques
  • Fortaleçam presença em comunidades e plataformas de conteúdo
  • Mantenham dados e informações atualizados continuamente

A marca que não for legível para IA corre o risco de desaparecer da shortlist antes mesmo da busca.

Retail Media Networks: proteger e capturar a nova porta de entrada

Para os varejistas, o movimento cria uma oportunidade dupla. A primeira é defensiva: evitar que a jornada migre totalmente para plataformas externas. A segunda é ofensiva: transformar seus ativos, CRM, app, dados e loja física, em motores inteligentes de recomendação. O valor estratégico não está apenas em vender mídia, mas em controlar o motor que distribui relevância.

O novo playbook das marcas: dados, conteúdo e integração

Para as marcas, a adaptação exige quatro pilares:

  1. Dados de produto estruturados
  2. Conteúdo confiável e atualizado
  3. Prova social e autoridade distribuída
  4. Integração entre brand, ecommerce, CRM e Retail Media

A recomendação conversacional mistura branding, disponibilidade e contexto. Não há mais separação clara entre mídia e experiência.

A próxima fronteira: monetização dentro da resposta

A publicidade também começa a migrar para dentro da conversa. O Google já testa formatos patrocinados no AI Mode, inserindo recomendações de varejistas dentro da experiência generativa. Isso sinaliza um novo modelo: o equivalente conversacional do search ads, integrado a contexto e intenção. Quando combinado com Retail Media, esse formato pode conectar mídia, oferta e fidelização de forma muito mais dinâmica.

O desafio da mensuração: do clique à recomendação

A indústria ainda não está pronta para medir esse novo ambiente. Métricas tradicionais como clique e ROAS são insuficientes. Surge a necessidade de novos KPIs:

  • Participação em respostas
  • Taxa de recomendação por contexto
  • Índice de citação por categoria
  • Impacto na shortlist de compra

A pergunta deixa de ser “o anúncio apareceu?” e passa a ser: a marca foi escolhida pela IA?

O inventário do futuro é a recomendação

Esqueçam Product Ads, Banner, Busca Patrocinada, Video Ads, etc, o inventário do futuro é a recomendação. Tratar IA conversacional como chatbot é subestimar o movimento.

A IA está se tornando a infraestrutura cognitiva da jornada de compra. Ela pesquisa, filtra, recomenda, aprende e conecta decisão à transação. Empresas como Walmart, Amazon, Carrefour, Tesco e L’Oréal não estão apenas testando tecnologia. Estão redesenhando a porta de entrada do consumo.

Para Retail Media, a conclusão é direta: o inventário do futuro não será apenas a tela disponível, mas a recomendação disponível. E a vantagem competitiva não será apenas comprar mídia melhor, mas ser a marca que a IA escolhe colocar dentro da resposta.

Ricardo Vieira
Ricardo Vieirahttp://www.digitalstoremedia.com.br
Ricardo Vieira atua em diferentes canais e segmentos há 30 anos no varejo brasileiro, é fundador da ABRAMEDIA e da DIGITAL STORE MEDIA, criado para fomentar todo ecossistema de Retail Media no mercado brasileiro, também dirige o Clube do Varejo, criado em 2019 para desenvolver pequenos varejistas. Ele também fundou e preside o Instituto Nacional do Varejo (INV), promovendo a indústria varejista desde 2017 com soluções inovadoras. Desde 2006, é sócio-diretor da TRADIUM, focada em soluções tecnológicas! Criou o Retail Media Academy, Retail Media News e Retail Media Show para fomentar a excelência em mídia e varejo. Com expertise em inteligência de vendas, trade marketing, CRM e fidelidade, Ricardo lidera projetos de inteligência para indústria e varejo. Sua trajetória inclui papéis significativos como VP de Sustentabilidade na ABRALOG e Coordenador Regional de Projetos na Ambev.

Ler mais

— Publicidade —

Conteúdos relacionados

Programas de fidelidade como motor de crescimento para os negócios de Retail Media

Por Miriane Schmidt. Os programas de fidelidade passaram por uma transformação relevante. Criados para reconhecer, recompensar e estimular o relacionamento entre varejistas e shoppers, hoje...

Retail Media Farma ganha escala em mercado farmacêutico que já movimenta R$ 279,7 bilhões

Crescimento do setor, avanço acelerado do digital, expansão do CRM e novas jornadas de saúde e bem-estar ampliam o potencial das farmácias como plataformas...

Retail Media Pharma nos EUA: o laboratório mais avançado para a próxima geração do canal farma brasileiro

CVS e Walgreens mostram que o futuro do Retail Media farmacêutico não está apenas na venda de mídia, mas na capacidade de transformar dados...

ChatGPT Ads chega ao Brasil e abre uma nova fronteira para Retail Media: a disputa deixa de ser apenas pela busca e passa a...

Plataforma publicitária da OpenAI transforma intenção conversacional em novo território de mídia e cria oportunidades e novos desafios para marcas, varejistas e Retail Media...