O novo consumidor em um cenário de disrupção permanente

Cinco anos depois da pandemia de COVID-19, o comportamento do consumidor não voltou ao que era, e provavelmente nunca voltará. O que começou como uma série de ajustes emergenciais se transformou em novos padrões de vida, trabalho e consumo.

A McKinsey & Company, em seu relatório State of the Consumer 2025: When Disruption Becomes Permanent, sintetiza bem essa transição: a disrupção deixou de ser uma exceção para se tornar o novo normal, como tanto já ouvimos por aí. A partir desse diagnóstico, vale olhar para o que realmente mudou e, principalmente, para o que isso significa para as empresas que dependem da confiança e da previsibilidade dos hábitos de consumo.

O tempo sozinho e a vida online como nova norma

A solidão, antes vista como algo negativo, passou a ser uma escolha, ou, ao menos, uma consequência inevitável de uma vida mais digital. O consumidor pós-pandemia aprendeu a se divertir, a trabalhar e a resolver tudo sem sair de casa. De acordo com a McKinsey, os americanos têm hoje três horas a mais de tempo livre por semana na comparação com 2019, mas 90% desse tempo é gasto em atividades individuais.

Isso tem implicações diretas no mercado. O consumo se tornou mais centrado no “eu”: autocuidado, bem-estar, hobbies e prazer imediato. O conceito de conveniência se ampliou e, além de receber rápido, hoje deseja-se receber de um jeito que se encaixe perfeitamente no cotidiano digital.

Empresas que entenderem essa transição do “consumo coletivo” para o “consumo pessoal” e souberem oferecer experiências sob medida serão as que conseguirão criar vínculos mais duradouros.

O digital influencia muito, mas ainda não conquista confiança

A influência das redes sociais é inegável, mas a confiança nelas é baixa. O consumidor as usa para descobrir marcas, mas decide com base no que ouve de pessoas próximas. É um paradoxo interessante: as mídias digitais são o palco principal das relações de consumo, mas a autenticidade ainda é o fator mais valioso.

Tal conjuntura exige das marcas uma postura nova: menos campanha e mais diálogo. A comunicação deve ser plural, misturando dados, vozes de influenciadores, conteúdo gerado pelo usuário e, sobretudo, coerência entre discurso e prática. O que ganha espaço não é o marketing puramente digital, mas aquele que gera confiança.

A Geração Z com o protagonismo econômico

A Geração Z já é a maior força demográfica e se tornará, em poucos anos, a mais rica. É também a mais contraditória: quer segurança financeira, mas gasta com prazer; se preocupa com o futuro, mas vive intensamente o presente.

De acordo com o relatório, o jovem médio da Geração Z nos EUA tem renda familiar 50% maior do que um boomer da mesma idade, mas poupa pouco e se endivida com facilidade. Quase metade deles usa serviços “compre agora, pague depois”.

Essa geração cresceu em meio à hiperconexão, à pandemia e à ansiedade econômica. Seus valores são moldados pela busca de propósito, pelo desejo de autonomia e pela exigência de experiências convenientes e significativas.

Mais do que vender produtos, portanto, as empresas precisam entregar relevância. Marcas que traduzirem seus valores em causas, ações e experiências reais terão a lealdade desse público e, consequentemente, o crescimento sustentável da década.

A redescoberta do regional

Enquanto o mundo globalizado se fragmenta, o consumidor redescobre o valor do que é local. A preferência por marcas nacionais cresceu em praticamente todos os mercados, segundo a McKinsey. Quase metade dos consumidores globais considera “comprar local” um fator importante em suas decisões.

Os motivos vão muito além do patriotismo. Há uma sensação de proximidade e identificação com o produto regional, pois ele entende o gosto, o contexto e o jeito de viver. É o antídoto contra a impessoalidade das grandes corporações.

Esse movimento também é estratégico: à medida que cadeias globais sofrem com volatilidade e custos, o consumo local ganha vantagem. As marcas multinacionais, dessa forma, precisarão repensar seus modelos, localizando produção, narrativa e oferta. Em um mundo de abundância, pertencer é o novo luxo.

A reinvenção do conceito de valor

O consumidor de 2025 não quer só o que é mais barato, mas o melhor negócio emocional. Ele equilibra economia e benefícios, corta em uma categoria para gastar em outra.

Mais de um terço dos consumidores, segundo o estudo, faz “trade-down” (compra mais barato) em um setor para poder “se mimar” em outro. Isso explica fenômenos aparentemente contraditórios: o crescimento simultâneo de atacarejos e marcas premium, de poupança e consumo por impulso.

O novo consumidor é racional e emocional ao mesmo tempo. Ele entende o preço, mas valoriza o propósito, e isso obriga as empresas a enxergarem valor como algo multidimensional: preço, tempo, propósito, conveniência e experiência.

O que as empresas devem fazer agora

A McKinsey propõe quatro ações estratégicas que valem como um roteiro para o futuro, mas que exigem, mais do que tecnologia, uma mudança de mentalidade.

1. Aproximar-se do consumidor com base nos dados, mas ir além ao oferecer empatia e observação profunda. A tecnologia é um meio; a compreensão humana é o diferencial.

2. Investir em gestão de crescimento de receita (RGM): dominar preços, promoções e portfólio com inteligência analítica, mas também com sensibilidade para o contexto local.

3. Adaptar o portfólio para o crescimento: inovar, adquirir, deixar de repor conforme o desgaste, experimentar. Crescer hoje passa mais por mobilidade do que pela escala.

4. Reconfigurar capacidades tecnológicas, não para substituir pessoas, mas para amplificar decisões, velocidade e personalização.

Empresas que entenderem que o futuro do consumo não é sobre previsibilidade, e sim sobre resiliência e leitura de contexto, terão o poder de moldar mercados.

Em síntese, o consumidor mudou e continuará mudando. A diferença é que, desta vez, a mudança não é uma fase: é o próprio ambiente em que vivemos. As empresas que vão prosperar não serão as que preveem o futuro com precisão, mas as que aprendem com ele em tempo real. Em um universo de disrupção permanente, adaptar-se é a nova forma de vencer.

Fernando Cardoso
Fernando Cardoso
Co-fundador e Chief Operating Officer da Sociax. Especialista em modelos de negócios digitais. Larga carreira com principais anunciantes do Brasil, com foco no investimento digital: Raia Drogasil, Carrefour, Magazine Luiza, Via Varejo, Bauducco, Grupo SEB, Cogna, Ânima, SENAI, SEBRAE-SP Whirlpool, Philips, Bayer, Claro, entre tantos outros.

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