A Evolução da alocação do Budget de Trade Marketing para Retail Media nos EUA. E como o Brasil ainda tem espaço para evoluir

Por Fernando Alves – Diretor e Especialista B2B em Foodservice

Durante décadas, o investimento em Trade Marketing esteve concentrado em instrumentos tradicionais de ativação no ponto de venda: negociação de espaço em gôndola, encartes promocionais, materiais de merchandising e descontos comerciais.

Esse modelo dominou a relação entre indústria e varejo principalmente nas categorias de bens de consumo. Entretanto, a digitalização do varejo e o avanço do e-commerce nos Estados Unidos iniciaram uma transformação estrutural nesse modelo, dando origem ao conceito de Retail Media Networks (RMNs), onde o próprio varejista se torna um canal de mídia altamente segmentado baseado em dados de compra.

Aqui nos Estados Unidos, essa mudança começou a ganhar escala a partir da década de 2010 com o crescimento de plataformas como Amazon Advertising, Walmart Connect e Target Roundel.

A principal vantagem desse modelo é o uso de dados de primeira parte (first-party data) provenientes das transações dos consumidores finais, permitindo campanhas extremamente direcionadas no momento de decisão de compra.

Como consequência, parte relevante dos orçamentos antes destinados a trade marketing tradicional começou a migrar para retail media, que oferece métricas mais precisas de retorno sobre investimento (ROI) e maior capacidade de mensuração de vendas incrementais.

O resultado dessa mudança é expressivo. O mercado de Retail Media nos Estados Unidos ultrapassou US$ 60 bilhões anuais em 2025 e continua crescendo rapidamente, com projeções próximas de US$ 70 bilhões em 2026 e quase US$ 100 bilhões até 2028.

Esse crescimento acelerado reflete uma mudança estrutural nos orçamentos das marcas: muitas empresas de bens de consumo já direcionam cerca de 39% de seus investimentos publicitários para Retail Media, evidenciando que o canal deixou de ser uma iniciativa experimental para se tornar um dos pilares das estratégias de go-to-market no varejo moderno.

Além da escala, as Retail Media Networks nos EUA também evoluiram em sofisticação.

O investimento não está restrito apenas à busca patrocinada dentro dos e-commerce. Hoje inclui mídia onsite, offsite, CTV, mídia programática e ativações dentro da loja física (in store), integrando mídia, dados e trade marketing em um único ecossistema.

Essa convergência transformou o varejo em uma das principais plataformas de mídia do mercado, chegando a representar cerca de um quinto de todo o investimento publicitário nos EUA.

No Brasil, apesar do crescimento recente, o estágio de maturidade ainda é significativamente inferior ao observado nos Estados Unidos.

O mercado brasileiro movimentou cerca de R$ 3,5 bilhões a R$ 5 bilhões em Retail Media em 2025, com forte crescimento anual acima de 40%.

Ainda assim, o setor representa uma parcela relativamente pequena dos investimentos de marketing das empresas e está concentrado principalmente em grandes plataformas digitais e marketplaces, como Mercado Livre e Amazon, grandes redes de varejo e alguns players de e-commerce.

Outro fator que explica o atraso relativo do Brasil é a própria estrutura do varejo.

Enquanto o Retail Media americano se apoia em grandes plataformas digitais com forte capacidade tecnológica e massiva base de dados, o varejo brasileiro ainda é altamente fragmentado e dependente de lojas físicas.

Estima-se que 80% a 90% das vendas do varejo brasileiro ainda ocorram em lojas físicas, o que limita a escala e a sofisticação das iniciativas de Retail Media, especialmente no ambiente omnichannel por falta de soluções integradas.

Mesmo com essas limitações, a tendência é clara: o Retail Media deve se tornar um dos principais destinos dos investimentos que historicamente pertenciam ao Trade Marketing tradicional.

À medida que varejistas brasileiros desenvolvem suas próprias redes de mídia e ampliam o uso de dados de shopper, espera-se uma gradual migração de verbas promocionais para esse modelo.

Porém, considerando a diferença de escala, tecnologia e maturidade de dados, o Brasil ainda está vários anos atrás do patamar alcançado pelos Estados Unidos, que já consolidaram o Retail Media como um dos principais pilares da estratégia comercial entre indústria e varejo.

E você? Já está 100% preparado para atuar nessa estratégia full funnel e baseada em dados comportamentais do shopper?

Fernando Alves
Fernando Alves
Executivo sênior de bens de consumo e transformação comercial com mais de 20 anos de experiência impulsionando o crescimento da receita, a transformação digital e a estratégia de entrada no mercado (GTM) na América do Norte e América Latina, tanto no varejo quanto no setor de foodservice. Líder comprovado em Vendas Digitais, Gestão de Crescimento de Receita (RGM), Precificação, Estratégia de Mercado, Omnicanalidade, E-commerce, Mídia no Varejo, CRM e transformação ágil, atuando em estreita parceria com a alta liderança para escalar o desempenho comercial e melhorar a conversão, a lucratividade e o engajamento do cliente. Ampla experiência na liderança de grandes equipes multiculturais e inter-regionais, tendo vivido e trabalhado em diversos países. Reconhecido por sua forte inteligência cultural, alinhamento com as partes interessadas e capacidade de traduzir a estratégia global em execução local em diversos mercados.

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