The Trade Desk e Unlimitail conectam dados do Carrefour à mídia programática e abrem nova fronteira para Retail Media no Brasil

Integração permitirá que marcas e agências utilizem segmentos determinísticos construídos a partir de dados transacionais do Carrefour diretamente na plataforma da The Trade Desk, ampliando o alcance do Retail Media para a open internet e colocando o Brasil no centro de uma nova etapa de programmatic commerce media.

A evolução do Retail Media começa a ultrapassar definitivamente os limites dos sites, aplicativos e inventários proprietários dos varejistas. A parceria ampliada entre The Trade Desk e Unlimitail é um dos movimentos mais importantes nessa direção.

As empresas anunciaram em 9 de setembro a disponibilização de mais de 80 segmentos de audiência Carrefour prontos para ativação, desenvolvidos pela Unlimitail a partir de dados transacionais agregados e anonimizados. Esses segmentos poderão ser acessados em modelo self-service diretamente dentro da plataforma da The Trade Desk, permitindo que anunciantes e agências planejem e ativem campanhas na open internet utilizando comportamento real de compra como sinal de audiência.

A operação começa na França e será estendida para Espanha e Brasil, transformando a iniciativa em uma discussão especialmente relevante para a evolução do mercado brasileiro de Retail Media.

De Retail Media Network para Retail Data Network

A importância estratégica da integração vai além da disponibilização de novos segmentos. Historicamente, grande parte das Retail Media Networks foi estruturada em torno de inventários proprietários: sponsored products, search, display, aplicativos, CRM e, mais recentemente, telas e experiências dentro das lojas físicas.

O modelo The Trade Desk + Unlimitail adiciona outra camada à arquitetura: Retail Data → Audience Intelligence → DSP → Open Internet → Measurement.

Na prática, o ativo mais valioso do varejista — seus sinais de compra — passa a funcionar como uma camada de inteligência para mídia programática fora das propriedades digitais do próprio retailer.

A Unlimitail transforma os dados transacionais em segmentos determinísticos previamente estruturados. A The Trade Desk funciona como infraestrutura de ativação, permitindo que agências e anunciantes incorporem essas audiências ao planejamento e à compra de mídia. Isso reduz uma das principais fricções históricas do Retail Media: a necessidade de construir audiências customizadas individualmente para cada campanha.

Dados determinísticos passam a alimentar a mídia programática

A mudança é tecnicamente relevante porque aproxima dois ecossistemas que cresceram durante anos de maneira relativamente independente.

De um lado está o programmatic advertising, historicamente estruturado em torno de sinais de navegação, identidade, contexto e comportamento digital. Do outro está o Retail Media, construído sobre dados de intenção e transação. Quando esses ambientes se conectam, surge uma arquitetura potencialmente mais poderosa: exposição à mídia → identidade/audiência → comportamento de compra → transação → mensuração.

Em vez de trabalhar apenas com consumidores que demonstraram interesse em determinada categoria, uma marca pode construir estratégias utilizando segmentos derivados de compradores reais daquela categoria ou comportamento de consumo. É a diferença entre trabalhar predominantemente com signals of interest e incorporar signals of commerce ao planejamento de mídia.

Self-service muda a economia operacional do Retail Media

Outro ponto relevante é o modelo operacional. The Trade Desk e Unlimitail informam que anunciantes e agências poderão acessar diretamente mais de 80 segmentos Carrefour sem necessidade de criação individualizada de audiência para cada campanha. Ofertas customizadas de dados e mensuração continuarão disponíveis diretamente por meio das equipes da Unlimitail.

Essa arquitetura cria, portanto, dois níveis de serviço:

Self-service: audiências padronizadas, escala, velocidade e autonomia operacional.

Managed/custom: segmentações específicas, estudos, mensuração avançada e projetos customizados.

Esse desenho pode ser importante para a rentabilidade das próprias RMNs. Se cada campanha depender de planejamento manual, construção de audiência, operação e reporting individualizados, o crescimento da receita exige crescimento quase proporcional das estruturas comerciais e operacionais. Self-service permite começar a desacoplar crescimento de receita de crescimento de headcount operacional.

Por que o Brasil é estratégico nessa integração

No mercado brasileiro, a iniciativa ganha uma dimensão adicional. A Unlimitail Brasil é a operação oficial de Retail Media do Grupo Carrefour Brasil e reúne Carrefour, Atacadão e Sam’s Club. Segundo informações da própria empresa, o ecossistema possui mais de 940 lojas, 68 milhões de visitantes mensais e 15 milhões de usuários identificados para segmentação.

A operação brasileira já trabalha com uma arquitetura omnichannel que envolve onsite, offsite, CRM e mídia in-store. No offsite, a empresa informa trabalhar com ambientes como Meta, TikTok, Pinterest, Google, YouTube, CTV e DOOH utilizando dados de compra para segmentação.

A entrada do self-service dentro de uma DSP adiciona uma dimensão importante: escalabilidade programática.

A agência deixa de depender exclusivamente de uma operação bilateral retailer-by-retailer para determinadas ativações e pode incorporar retail audiences dentro de estruturas já utilizadas para planejamento, compra e otimização de mídia.

O impacto potencial sobre o mercado brasileiro

A integração pode acelerar pelo menos seis transformações importantes no ecossistema nacional.

1. Retail Media entra definitivamente no planejamento de mídia.
Retail Media deixa de ser apenas uma verba negociada com o varejista e passa a disputar orçamento dentro da arquitetura programática das agências.

2. O dado do varejista passa a ter valor além do inventário do varejista.
O ativo econômico da RMN deixa de ser apenas audiência + inventário e passa a incluir Audience-as-a-Service.

3. Offsite ganha escala.
O varejista pode transformar conhecimento transacional em inteligência para alcançar consumidores em CTV, vídeo, display, áudio e outros ambientes da open internet.

4. A jornada deixa de ser linear.
O Retail Media passa a atuar desde awareness e consideração até conversão, recompra e retenção.

5. Agências recuperam protagonismo operacional.
Com audiências disponíveis dentro da DSP, planners e traders conseguem incorporar retail data ao mesmo workflow utilizado em outras estratégias programáticas.

6. Cresce a pressão por interoperabilidade.
Se grandes retail datasets estiverem disponíveis diretamente nas plataformas de compra, outras RMNs brasileiras serão pressionadas a oferecer APIs, clean rooms, integrações com DSPs e modelos self-service semelhantes.

O próximo campo de batalha será a mensuração

A ativação, entretanto, resolve apenas metade do problema. A próxima disputa competitiva será determinar quem consegue conectar: Audience → Exposure → Conversion → Incrementality → Customer Value.

A própria Unlimitail Brasil apresenta atualmente métricas como sell-out, uplift, ROAS, iROAS, market share, novos compradores, recompra e insights de categoria em sua proposta de mensuração.

O desafio será transportar essa profundidade analítica para campanhas distribuídas pela open internet. Isso significa avançar além de CTR, CPM e conversão atribuída para indicadores como:

  • incremental ROAS
  • incremental sales
  • new-to-brand
  • category penetration
  • market-share uplift
  • frequência de compra
  • taxa de recompra
  • LTV
  • exposição cross-channel
  • deduplicação de audiência
  • contribuição marginal de cada canal.

É justamente nesse ponto que Retail Media pode transformar profundamente a mídia programática: substituir parte da lógica baseada em proxies de comportamento por sinais concretos de resultado comercial.

Um novo modelo: Commerce Intelligence Layer

A leitura estratégica para o mercado brasileiro é que estamos caminhando para algo maior que uma Retail Media Network tradicional. O varejista pode evoluir para uma verdadeira Commerce Intelligence Layer.

Nessa arquitetura, o retailer não precisa possuir todo o inventário no qual a campanha será veiculada. Seu principal ativo passa a ser a capacidade de interpretar comportamento de compra e transformar essa inteligência em audiências, decisões de mídia e mensuração.

Podemos resumir essa evolução em quatro estágios:

RMN 1.0 — Monetização de inventário
Sponsored Products, search e display.

RMN 2.0 — Omnichannel Media
Onsite + offsite + CRM + in-store.

RMN 3.0 — Retail Data Network
Dados determinísticos alimentando DSPs e plataformas externas.

RMN 4.0 — Commerce Intelligence Network
IA, otimização dinâmica, incrementalidade, predição, LTV e decisões automatizadas de investimento.

A parceria entre The Trade Desk e Unlimitail coloca o mercado brasileiro mais próximo do terceiro estágio.

Pressão competitiva sobre as RMNs brasileiras

Há ainda uma consequência estrutural. O Brasil vive uma rápida proliferação de Retail Media Networks. Cada retailer tende a desenvolver sua própria plataforma, taxonomia, audiência, métricas, operação comercial e modelo de reporting. Para as marcas, isso cria fragmentação.

Uma grande indústria pode precisar administrar simultaneamente diversas RMNs, cada uma com processos, dashboards, métricas e critérios de atribuição diferentes.

Integrações entre retail data providers e grandes plataformas de mídia apontam para o movimento contrário: Retail Media precisa tornar-se interoperável.

A competição deixará progressivamente de ser apenas: “Qual varejista possui mais inventário?” e passará também a ser: “Qual ecossistema possui os melhores dados, maior capacidade de ativação, melhor interoperabilidade e maior capacidade de provar incrementalidade?”

Retail Media começa a disputar o topo do funil

Existe finalmente uma mudança importante na distribuição dos investimentos. Retail Media nasceu fortemente associado ao fundo do funil. A integração com ambientes programáticos permite levar inteligência transacional para awareness e consideration.

Uma marca pode utilizar comportamento real de compra para identificar audiências estratégicas e alcançá-las antes que retornem ao ambiente do retailer. Isso transforma Retail Media de um mecanismo predominantemente de conversion advertising em uma infraestrutura de full-funnel commerce media.

O varejo passa a conectar três ativos extremamente valiosos: quem compra + o que compra + como alcançar novamente esse consumidor.

A próxima fronteira da Retail Media brasileira

A parceria entre The Trade Desk e Unlimitail deve ser observada menos como uma simples integração tecnológica e mais como um sinal da arquitetura que pode dominar a próxima etapa do mercado.

O futuro tende a ser construído sobre interoperabilidade entre retail data, DSPs, publishers, CTV, social platforms, clean rooms e sistemas de mensuração.

Para as marcas, isso significa maior autonomia e capacidade de incorporar sinais comerciais ao planejamento de mídia. Para as agências, representa a possibilidade de colocar Retail Media dentro do workflow programático. Para os varejistas, abre uma nova oportunidade de monetização de dados e inteligência. E para as RMNs brasileiras, estabelece uma nova referência competitiva.

A pergunta deixa de ser apenas quanto inventário uma Retail Media Network consegue vender. Passa a ser: quanto da jornada de consumo essa rede consegue compreender, ativar e mensurar — independentemente de onde a mídia é exibida.

Essa mudança pode transformar Retail Media de um conjunto fragmentado de redes de varejistas em uma nova camada de inteligência da publicidade digital brasileira.

Retail Media News
Retail Media Newshttps://retailmedianews.com.br
O Portal RM News é uma iniciativa da ABRAMEDIA, criada com o propósito de reunir todo o conhecimento e conteúdo sobre Retail Media no Brasil e na América Latina. Seu objetivo é capacitar e qualificar novas lideranças do mercado, divulgando e promovendo projetos premiados, cases de sucesso, melhores práticas, tendências e projeções. A proposta de valor do portal está em fornecer os conceitos e fundamentos essenciais para sustentar o crescimento e a expansão do Retail Media, estabelecendo-se como a principal fonte de consulta especializada no setor.

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